Escrito por: Greta Fernandes Moreira
Uma vida inteira alimentando um sonho: “quando você tiver
sua casa, poderá, então, comprar seu cachorro”. Antes disso, não. Na minha
casa, não. Ressoavam as palavras de minha mãe em minha cabeça, há muito já
internalizadas. Agora, NÃO!
Um sonho, adiado e adiado, por 20 e tantos anos. Eis que, de
repente, surge a grande oportunidade tão esperada. Mudança de planos, mudança
de cidade, mudança de vida. E, claro, a chance de ter um cachorro!
Mas, como tudo que é bom dura pouco, com o sonho da casa
própria, não tão própria, mas própria o suficiente para se localizar a mais de
2.000 km da casa de meus pais, veio novo entrave. Como assim é proibido criar
cachorro num condomínio do Rio de Janeiro? Oi? Alguém pode me explicar? A
cidade que mais tem cachorro por metro quadrado e eu venho parar no
provavelmente único edifício onde é proibido ter cachorro?
Para o mundo que eu quero descer. I-na-cei-tá-vel. É ou não
é? Chora, esperneia, pensa em rescindir o contrato de aluguel... É, pensando
bem, melhor continuar por aqui mesmo. Já foi difícil conseguir essa façanha de
sair de casa. Esperar. Sim, esperar é o melhor remédio. Afinal, quem queria um
cachorro mesmo? Trabalho, despesas, bagunça na casa, brinquedos espalhados,
banho, tosa, ração, carinho, atenção, aquele olhar meigo, uma recepção calorosa
depois que você chega em casa estressada de tanta aula e de ter tido aqueeela
discussão com a sua orientadora que não queria incluir justo aquela parte do
capítulo cuja ideia foi ela própria quem deu...
É pra que que eu vou querer mesmo um cachorro? Não, porque
eu não preciso de alguém que fique sempre feliz em me ver, de alguém que não me
julgue mesmo quando eu tenho que deixá-lo sozinho por algum tempo.
Principalmente, porque, de fato, eu não preciso de ninguém pra me fazer
companhia e ajudar a passar o tempo nessa cidade estranha onde ainda não
consegui fazer amigos. Porque, realmente, não preciso de ninguém pra me
acompanhar naquela manhã preguiçosa de domingo, nem de ninguém pra dar um
pulinho ali na praia, ou um rolêzinho no shopping. Não! Você deve ser
autossuficiente, e um cachorro, afinal, só dá trabalho.
Espera. É temporário. Já já você volta, compra seu
apartamento e, então, poderá ter seu cãozinho. Futuro. De novo. Eterno
adiamento. E se eu morrer amanhã? Vou ter passado por essa vã existência sem
realizar esse desejo tão antigo? “Amanhã, tudo vai ser melhor, tudo vai se
ajeitar... E você poderá, então, dar muito mais atenção e cuidar muito melhor
de seu cachorro”. Ahh, sério?? Sério mesmo? Será se quando eu voltar, terminado
o doutorado, vou ter mesmo tempo de sobra pra cuidar de alguém? Pela rotina de
trabalho de docentes que vejo por aí, não terei tempo de cuidar nem de mim.
Momento perfeito. Existe? É fábula ou invenção capitalista?
Não é perfeito agora. Não será perfeito amanhã. Oportunidades se criam, o
momento se faz. Tudo bem. Tudo bem. Cansada de argumentar, sigo minha
vidinha... É, eu não teria mesmo como manter um cachorrinho nas circunstâncias
atuais. Dinheiro pra pet, pra ração, pra hotel... mentirinhas que crio na minha
cabeça, argumentos no melhor estilo “uvas verdes”, na tentativa de me convencer
do impossível.
Ok. Ok. Mais um
mês. Encontro-me relativamente de boa, até que, voltando numa sexta à noite da
aula de francês, eis que me deparo com “A CENA”, com direito a caps lock e tudo porque ela merece.
Entro no prédio, dou boa noite ao porteiro, movimentos comuns a todas as minhas
(não tão) constantes entradas e saídas, e espero o elevador.
CHOQUE.
O que eu vejo?? Não. Será mesmo possível? Ou será que estou
alucinando? “Boa noite, Michael”, “Boa noite, tudo bem? E essa feeera, já tem
nome?”, “Tem sim, é o Chico”. Diretor, uma câmera lenta, s’il vous plait, pra registrar o momento. Sim, não há dúvidas. Ao
meu lado, bem ao meu lado, o que vejo? Não posso crer em meus próprios olhos.
Mas está lá. Pra quem quiser ver. Muitos, no caso, à espera do elevador.
Sim, caro leitor. O que vi foi exatamente o que você a esta
altura já está imaginando. Afinal, pra que tanto suspense? Lembro, então, dos
sussurros do locador do imóvel “é proibido cachorro, mas alguns criam
escondido!”. Ahh, então tá. Isso justifica muito o fato da garota estar
segurando, com um sorriso sem tamanho estampado em seu rosto, um lindo filhote
de buldogue francês, obviamente recém adquirido.
O Chico. Mas também poderia ser o Juca, o Alfredo, o Bento,
ou qualquer outro nome dos cachorros de todos os meus amigos que surgiram nos
últimos seis meses, tempo exato que me mudei pra minha “casa própria”. Nesse espaço
de tempo, vi todos, inclusive aqueles que nunca, mas eu disse NUNCA, dantes se
importaram com uma formiga sequer, apaixonados por seus filhotes lindos e
faceiros.
E eu? Bom, eu não! Continuo, há seis meses, ponderando prós
e contras, racionalizando, me proibindo, adiando... Adiando pra quando? Pra
quando eu tiver trabalhando 12 horas por dia? Pra quando eu me casar e tiver um
marido que odeia cachorros? Pra quando eu tiver um filho alérgico a pelo de
animais? Adiar, pra quando? Não vejo meus amigos adiando nada. Racionalizando
nada. Ahh, hoje acordei com vontade de ter um cachorro. Puft. Comprei. Ahh,
esse cãozinho foi abandonado já por três famílias, você não quer? Puft.
Adotei... mas eu não. Quero um cão há 20 e tantos anos, mas ainda não. Ainda
não dá. Ainda não tá na hora.
Quer saber?? Foda-se. Tá na hora sim. Tá na hora porque eu
quero que esteja. Tá na hora porque sinto falta de uma companhia. Tá na hora
porque agora eu tenho tempo de cuidar desse ser. Tá na hora, sim!
Decisão tomada. Que o condomínio me leve à justiça. Que eu passe
a viajar menos. Eu quero. Eu posso. Pesquisa daqui, pesquisa de lá. Um maltês.
É isso, um maltês. Esse cãozinho tão sofisticado que parece da realeza. Contato
um vendedor, pechincho o preço. Ótimo. “Na semana que vem lhe entregaremos a
sua princesa. Tenho certeza que você não vai se arrepender”. Certeza. Eu também
tenho. Jamais vou me arrepender.
Chegado, finalmente, o dia da entrega. Marco um lugar
neutro, a pracinha aqui perto. Pego uma bolsa grande, a maior que consegui
achar. Sinto-me num verdadeiro filme de ação, a la Missão Impossível, chego mesmo a ouvir a trilha sonora
enquanto me aproximo do lugar do encontro. Tã, tãã, tãã, tãããã, tãã, tã.
Encontro a alegre senhora segurando nada mais nada menos que o meu sonho, bem
ali, em suas mãos.
Como contrabandear um filhote para dentro de um apartamento?
Alguns felizardos apenas entrariam pela porta da frente, cabeça erguida,
filhote nos braços. Eu? Abro minha maxi bag (ainda existem?) coloco o pequeno
pedaço de algodão lá dentro. “Fica bem filhinha, mamãe já já te tira daí. Só
colabora tá?? Por favor? Por favorzinho??”. Chego ao portão. O conhecido clique
do destravamento. “Operação cãotrabando em andamento”. Entrei. Abrir a porta de
serviço. Ok! Esperar o elevador. 12º andar. Really?? Eu mereço mesmo. Murphy,
Murphy. Uma vez e pra sempre. Tento fazer a cara mais blasé possível. Não, to
de boa. Tá tudo muito legal. Não to me sentindo uma criminosa em alto grau.
Burlando a lei. Felicidade interna. Deve ser a primeira vez que quebro alguma
regra na minha vida. Me sinto uma transgressora. E na bolsa, bem ali do meu
lado, o produto maior desse crime. Vou criar um cachorro num ambiente (parcialmente)
proibido. Uau! Quem diria hein? Consegui me tornar uma criminosa.
Mas ainda não dá pra comemorar. Sempre pode acontecer alguma
coisa. Tipo, a minha há quinze minutos já adorada cachorrinha poderia começar a
fazer um escândalo, saltar da bolsa, passar pela frente do porteiro, e sair
correndo pro além, estragando todo o meu plano criminoso. Mas não. Ela
continuava lá, quietinha, como quem entendesse a situação. Bem ali, naquele
momento, nos tornamos cúmplices pra toda a vida. 11º, 10º, 9º... 2º, 1º, G2,
G1... pra que diabos tanto piso de garagem?? Jesus. Tento não olhar pra bolsa
contendo o material contrabandeado, mas aquele par de olhos castanhos insiste
em encontrar os meus. Estou aqui, mamãe. Quietinha.
Eis que a porta se abre. Vazio. Murphy, I love you. Obrigada pelo break
aí em suas intervenções. Subo até o segundo andar. Abro a porta. Enfim, em
casa. Lar doce lar, Frida. Tranco as portas. Retiro-a cuidadosamente da bolsa,
agradecendo pelo comportamento exemplar. Ergo-a nos meus braços, enquanto
aquela lágrima teimosa insiste em sair do canto dos olhos. Finalmente. Minha.
Só minha. Enquanto me afogo em pensamentos, um gemido, seguido de uma lambidinha.
É, eu também já era dela. Só haviam passado poucos minutos, mas já tínhamos uma
a outra pra sempre. E tudo valeu a pena. Até mesmo me tornar uma criminosa,
quebradora de regras de convenção de condomínio.